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PAVIO CURTO


CORAL ETILISTA

Resolvi hoje atualizar o meu blog, não motivado por nenhum fato específico mas pelas reclamações de amigos-leitores, algumas seguidas até de acusações do crime, delicioso para um taurino, de preguiça. Minha intenção era escrever sobre conflitos existenciais como propulsores de produtividade pessoal, tema para o qual fui inspirado pelo blog de um jovem novo amigo que viveu apenas metade do que já existi. Mas me sento na frente do computador e minha inspiração é tumultuada por um grupo de cantores desafinados que após alguns copos de cerveja, resolveram unir-se num coral saudosista a entoar canções antigas, a mais nova delas, com certeza, comemorando vinte anos de existência. Tento prosseguir no meu intento de defender a tese dos benefícios dos conflitos, mas... nada. Nenhuma possibilidade de tecer um raciocínio interessante, tendo como fundo musical as esganiçadas vozes dos meus vizinhos. Pausa longa, pitada de raiva, algumas idas à janela na tentativa de perceber algum movimento de despedida do grupo; penso em desistir de satisfazer meus amigos-leitores. Mas, de repente, eles entoam mais animados ainda, o refrão de uma música, versão de Gilberto Gil: “ Não, não chore mais. Não, não chore mais!” O riso foi inevitável, o recado informal estava dado. Não vou chorar, mudo de tema e vou escrever!

 

 

O coral dos senhores trabalhadores embaixo da minha janela que antes produziam em mim um efeito de estresse, começou a conduzir uma sensação de felicidade, ainda que desafinada nas características vocais mas em plena forma na essência dos sentimentos e lembranças que cada um deles usava como motivador para o canto. Alguns arriscavam um canto choramingado falando de alguma amada que se fora, outros embutiam na voz cantada um sorriso ao falar de reencontros. Tive direito até a um solo do que era certamente considerado o  mais talentoso e aplaudido calorosamente por seus colegas ao final da exibição. Interpretações genuínas de paixões e saudades. E a “beleza” desse show na calçada de um boteco foi se desvendando.

 

Talvez o canto seja a maior e mais poderosa arma libertadora do ser humano e certamente a mais grandiosa expressão de felicidade. Através dele nossos conflitos são amenizados ou, no mínimo, são expressos de forma menos dolorosas. Se a felicidade é motivadora primeira da manifestação cantada, a melancolia é fonte inspiradora freqüente na produção das canções. Acredito que a manifestação espontânea do canto como a ocorrida nessa tarde, seja sempre impulsionada pela vibração de felicidade libertária própria dos domingos, mas o mesmo canto pode ser o caminho condutor para o contato com a mais profunda tristeza existencial. Quem nunca entrou no chuveiro, fez do frasco de shampoo um improvisado microfone e soltou a voz após um orgasmo intenso? Quem nunca teve vontade de correr e cantar alto após ouvir um “sim” da pessoa amada? Quem nunca experimentou um bem-estar súbito ao ouvir no radio do carro uma música querida? Mas também que nunca chorou cantando embaixo do mesmo chuveiro? Ou quem nunca colocou uma música de Nana Caymmi ou Maísa ou qualquer outra voz com capacidade de tocar uma alma vulnerável pra ser fundo musical de um momento de forte melancolia?

 

O canto, a música... sem as sete notas em infinitas combinações certamente nossa existência seria infinitamente menos saudável e menos prazeirosa.

 

O coral encerrou seu show quase ao mesmo tempo que concluo meu pensamento. Tenho vontade de voltar à janela, dessa vez para aplaudir os cantores alcoolizados mas me contenho pensando que poderia ficar sendo conhecido por eles como o “maluco do segundo andar”.


 

Preciso comprar meu som novo, o antigo está dando sinais de envelhecimento e  me dou conta que não tenho ouvido mais música em casa com a freqüência de antes. Talvez seja esse o motivo de alguns conflitos, produtivos ou não, que sejam embalados por música! Sempre música!!!!



Escrito por tom às 17h05
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CARBOIDRATOS AMIGOS

Síndrome vertiginosa. Uma síndrome, na linguagem médica, é um conjunto de sinais e sintomas e a palavra vertiginosa tem etimologia mais do que óbvia. Este foi o diagnóstico dado há quase um ano e meio atrás para uma tontura súbita de que fui acometido acompanhado de um suor frio e a sensação desagradável de fim de linha. Depois de muitos exames e cinco crises em dois meses, o que me deixou numa instabilidade emocional nunca experimentada antes, ou talvez só comparável a um amor desmedido no passado que transformou minha auto-estima num vapor rasteiro, foram afastadas todas as hipóteses de outras doenças mais graves causando a tal síndrome como tumor ou insuficiência na circulação cerebral ou mesmo diabetes.  A hipótese considerada mais provável para os meus momentos de mais desagradável desequilíbrio corporal, foi um defeito talvez genético no ouvido interno; pois é, temos um ouvido externo e um interno e até mesmo um médio como mostra a figura. Nada a fazer para cura definitiva e algumas precauções foram aconselhadas como abstenção total do café e álcool em doses exageradas, cuidado com os doces, uso de algumas medicações antes de embarcar num vôo ou em viagens terrestres e marítimas prolongadas, prática de exercícios físicos. Pois bem, um ano e quatro meses sem nenhum vestígio da desequilibradora síndrome.

 

A recomendação de exercícios físicos regulares foi facilmente atendida, ou melhor,  é um hábito que mantenho há muito tempo quando nem pensava que pudesse ser vítima da antigamente nominada labirintite, considerada doença de velhos. Bom, pensando bem, esse pode ser o primeiro sinal de envelhecimento irreversível, mas não quero falar disso agora. E por não querer nem pensar nessa possibilidade, resolvi aliar às minhas duas horas e meia diárias de academia, uma dieta noturna que consiste em evitar os famosos carboidratos, inimigos da boa forma, visando perder uns três ou quatro quilos e definir a musculatura já um tanto elogiada. Vaidade assumida e talvez exagerada. No lugar dos habituais biscoitos e petiscos noturnos, passei a ingerir gelatinas diet, sopas light, atum com verduras e outras receitas recomendadas por amigos, todos com abdome de tanquinho e índice de gordura corporal abaixo de 10. Já no primeiro dia um cansaço foi sentido, no segundo parecia que eu estava drogado, no terceiro o raciocínio ficou lentíssimo e na manhã do quarto dia acordei sentindo um calor esquisito e ao sentar na cama o mundo rodopiou, meu quarto virou uma montanha russa desgovernada, o chão rapidamente ficou encharcado de suor que pingava de todos os meus poros e o estômago revirava como uma máquina de lavar roupas. Por sorte eu havia esquecido o telefone na mesa de cabeceira e pude pedir socorro à minha família que ciente da minha auto-suficiência  sabe que quando solicito ajuda é porque não houve outra alternativa. Enquanto esperava a chegada de algum parente, outro sintoma enriqueceu a crise; uma cólica abdominal que me obrigou a percorrer a distância entre a minha cama e o banheiro, na verdade uns 3 ou 4 metros que se transformaram num desafio, como andar numa corda bamba. E ao abrir a porta da rua para meus salvadores, distância maior e maior o desafio, o mexe-mexe do estômago se intensificou e premiei o chão da sala de estar com um conteúdo gástrico finalizado num balde trazido às pressas pelo meu cunhado, herói do dia pela ausência de asco aos meus conteúdos excretáveis. Daí em diante, tontura, náuseas, sudorese, tremores e principalmente os vômitos alarmaram meus familiares que decidiram pela hospitalização numa emergência na qual permaneci durante quase doze horas numa segunda etapa de investigações.

 

Conclusão final: a síndrome vertiginosa tinha sido detonada pela minha louca dieta, o meu afã em perder algumas células de gordura promoveu um sábado desagradável para todos e subseqüentes dias de uso de medicações que transformaram minha rotina, inclusive me afastando das esteiras e bicicletas e quem sabe, incorporando alguns quilos a mais. Não vou subir em balança nenhuma até poder recuperar minhas horas de academia, mas também quero todos os biscoitos e merendas noturnas que meu paladar desejar. Os carboidratos são agora meu amigos, preferidos e queridos!


Fiquei sabendo que a incidência dessa síndrome é maior do que imaginava. Alguém aí já foi acometido?

 




Escrito por tom às 17h22
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FASES DA VIDA

Em primeiro lugar quero pedir desculpas pela demora na atualização desse blog mas escrever pra mim é um ato de extrema exposição de pensamentos, e para que isso aconteça de forma íntegra e sem a superficialidade tão comum nos relatos que transformam os blogs num diário de ocorrências banais, tenho a necessidade de uma motivação qualquer que torne válido um registro textual. O fato é que nos últimos tempos a rotina aliada a eventos mais ordinários como uma gripe, e me permitam o desabafo, filha-da-puta, que me deixou de cama uns 3 dias, não produziram motivações suficientes.

 

Há uns 3 dias, fui visitar a minha vó, aquela de quase 97 anos e que já está virando protagonista de varios post... Sempre tive uma tendência a encarar a vida como um processo ininterrupto de envelhecimento e nisso não vai nenhum pensamento derrotista ou sequer melancólico, mas a evolução de algumas funções combinadas com a involução de outras sempre me pareceu um mistério indecifrável. Chico Anísio escreveu uma crônica que ouvi dramatizada no programa Fantástico há alguns anos em que ele teorizava um processo vital ao inverso, ou seja, começaríamos a nossa existência cheios de rugas e limitações e com o passar dos dias nos tornaríamos mais ágeis, mais bonitos, mais efusivos até “morrermos” num intenso orgasmo. Já se definiu também o envelhecer com uma máxima um tanto quanto pessimista, embora com certa veracidade; “quanto mais sabemos, menos podemos”. Num aspecto todos parecem concordar. Não é fácil envelhecer!

 

Fala-se muito na adolescência como período de absoluta crise e até uma especialidade médica, que me foge o nome agora, foi criada para tratar pacientes nessa fase. Quem não já se irritou com aqueles bandos de adolescentes nos shopping center com suas vozes dissonantes e vários tons acima do suportável aos ouvidos humanos?! Neles a energia vital transborda, pouco se sabe mas tudo se pode. Por outro lado, suas identidades ainda não consolidadas provocam momentos da mais completa angústia existencial. Eles não sabem como se definir, mulheres ou meninas, meninos ou rapazes, uma transição obrigatória. Não é fácil “adolescer”!

 

A felicidade existencial no sentido mais completo e profundo do conceito, só é possível portanto, a uns poucos adultos, os que sabem um pouco mais e podem um pouco mais, e para isso, tenho cada dia mais certeza, torna-se imprescindível a “honestidade pessoal”, o respeito vigilante sobre nossos gostos, anseios e afetos. Posso felizmente declarar que sou um privilegiado, vivencio a minha felicidade existencial numa intensidade satisfatória e sempre crescente com todos os ingredientes necessários, saúde, amigos maravilhosos, família unida, profissões que me dão prazer... e os temperos adicionais vou conquistando. È bom amadurecer!

 

E que dia podemos definir que ficamos velhos? Minha vó fala que ficou velha aos 90 anos. O que definiria essa passagem? Talvez a incorporação irreversível de um sentimento de cansaço, profundo cansaço. E tudo terminaria num suspiro. De cansaço. De alívio. Alívio de quem senta depois de uma longa caminhada. Os pés param de arder. E agora tudo sabemos e tudo podemos.


Vou me esforçar para escrever com mais freqüência. Escrever me traz uma sensação de felicidade plena. Quem sabe não me aventuro num verdadeiro livro?

 




Escrito por tom às 15h24
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TEIA DE CORDÕES

Na noite do ultimo domingo, ao checar no celular se alguém havia telefonado no tempo em que mantive, por motivos profissionais, o aparelho sem campainha, encontro uma mensagem do meu amigo virtual, já motivo de um post anterior, que dizia: “minha mãe se foi hoje de manhã. Estou triste.”  Notícias de falecimentos sempre me deixam triste, mas quando se trata de mães a sensação é ainda mais profundamente melancólica. Ainda tenho a minha viva e com relativa saúde mas já acompanhei a “ida” de algumas mães de amigos e a atmosfera que se instala é bem diferente, a tristeza das pessoas em geral e dos filhos em particular parece mais intensa. Minha mãe algumas vezes já expressou a sua preocupação com a possibilidade de algum dos seus cinco filhos tenha a vida encerrada antes da dela, o que para ela seria uma dor irreparável, mas para nós, filhos, a idéia da morte materna deveria ser de alguma forma esperada, considerando a tão famosa e nem sempre obedecida “ordem natural das coisas”. Mas não acontece tão tranqüilamente assim.

Baseado nas reações dos meus amigos órfãos maternos e até em depoimentos deles, a morte da mãe encerra uma etapa, finaliza um estado. Um elo se rompe, o elo ascendente, um galho da árvore genealógica quebra e agora a outro galho cabe gerir o equilíbrio. Não é mais possível o contato com a origem; foi-se a fonte genética, a primeira casa, o primeiro abrigo aquecido, a primeira refeição, o primeiro espelho, a primeira voz... o primeiro amor. Cortaram pela segunda vez, e de forma definitiva, o cordão umbilical. Agora se flutua à deriva e colocar os pés em solo firme parece uma possibilidade remota. Não existe amor mais completo, intenso e incondicional do que o amor materno, mas quando este se torna uma lembrança ou exercido apenas em atmosferas transcendentais, são outros amores que formam novos cordões. Alguns familiares ou mesmo filiais sendo que pra esses se assume a função de origem primeira, e outros onde não pulsa o sangue original mas por onde trafegam emoções igualmente intensas.

Somos libertos numa teia de cordões genéricos, imitações magníficas do cordão umbilical, cordões de filhos, de irmãos, de namorados, esposas, cordões passageiros de quem nos sorri na rua ou de quem nos oferece algum serviço, milhares e milhares de cordões que se prendem no nosso coração ou apenas no olhar, ou em qualquer outra parte a depender da criatividade de cada um. Desses todos talvez os cordões dos amigos sejam os mais fortes e resistentes.

Quando li a mensagem do meu virtual amigo, entristeci por um lado e me alegrei por outro. Quando perdemos alguém querido, e nisso tenho alguma experiência, a preocupação da família em geral é avisar aos conhecidos, parentes e amigos do falecido. Mas a preocupação específica de quem sofre a perda é avisar a quem possa nos confortar. Entendi a mensagem como prova indiscutível de que existe um cordão que nos une, e se não pude encurtar esse cordão – estamos a 2000 km de distância – ao ponto de poder abraçá-lo forte, vai nesses versos todo meu carinho de poeta amador.


Os meus versos vão publicados no blog seguinte porque mais uma vez excedi o limite dos caracteres

 




Escrito por tom às 20h17
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ADEUS MAMÃE

Adeus mamãe,

que chegou a hora de uma despedida pouco pensada,

não tão esperada quanto à em que me pariste,

que a gravidez com seu prazo calculado

avisa a proximidade com dor natural.

Mas essa dor agora é estéril, surda e funda.

É uma dor sem jeito essa dor no peito

 

Adeus mamãe,

que agora estou eu aqui, solto no mundo,

que o cordão já se partiu.

Intensa tua felicidade ao me ver chorar a primeira vez.

Intensa minha dor ao assistir teu fim.

E choro mais alto, bem mais alto

que no momento em que nasci.

 

Adeus, mamãe,

que é minha vez de parir,

mesmo esse parto que ao contrário se encerra.

Me puseste pra fora, nesse mundo

E agora eu a coloco pra dentro da mãe maior,

A terra.



Escrito por tom às 20h15
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HOLTER

Holter, esse é o nome de um exame que consiste no registro da atividade elétrica do coração durante 24 horas, isso mesmo, um eletrocardiograma contínuo durante um dia inteiro. Mas é claro que não é necessário a permanência do paciente numa maca, imóvel todo esse tempo, não chega a ser tão incômodo assim.  O exame é realizado por um aparelho preso na cintura, uma caixinha preta contendo uma fita onde vai sendo gravada a dinâmica do coração com fios presos no peito esquerdo por poderosas fitas adesivas. Pois bem, aqui estou eu ligado a fios e com uma pochete preta na cintura, e se os mais novos não conhecerem esse utensílio tão usado na década de 80, que pesquisem ou perguntem aos pais.

O exame foi solicitado por meu cardiologista, apenas por precaução, considerando a minha queixa de uma eventual e rara sensação de peso no peito que mais considero resultado de lacunas emocionais, eufemismo de carências, do que de desequilíbrios fisiológicos. Mas aceitei ficar essas 24 horas registrando meu compasso cardíaco.

Amanhã quando entregar o aparelho de volta, estará gravado na fitinha toda a dinâmica cardíaca, mas... e se por esses fios pudesse passar toda minha história emocional? Não se fala que o coração abriga as emoções? Imagino que o meu pobre médico ficaria emocionado em algumas passagens quase cinematográficas como um namoro num banho de mar numa noite de lua cheia, com direito a beijos apaixonados e promessas de amor eterno, o coração inchado de felicidade e palpitante de desejos na época pouco conhecidos. Talvez ele ficasse triste com as cenas de depressão, de choros convulsivos, de amores não correspondidos; talvez achasse chato quando interpretasse os traçados de um período inexpressivo emocionalmente quando decidi “resfriar” o coração na inútil tentativa de não me expor à dor, sem sabê-la inerente aos amantes. Talvez criasse um certo suspense nos momentos de mudanças radicais como na época em que larguei tudo para morar numa outra cidade, realizar outros sonhos. Meu médico poderia dar qualquer diagnóstico, menos insuficiência emocional. Esse meu coração amou pouco mas intensamente, não proclamou independência total da razão mas até hoje convive em tácito acordo com ela,  e até já conquistou alguns episódios de quase puras loucuras.

Amanhã, depois que arrancar do peito esses fios, vou proclamar a época do pensamento cardíaco, durante a qual meu raciocínio se fará segundo minhas mais puras e sinceras emoções. Época onde chorar e rir serão possibilidades sempre presentes, amar tudo e todos que possam eventualmente ou por momentos mais prolongados, oferecer um segundo de felicidade.  

Está declarada guerra aos neurônios repressores e às sinapses da timidez.  


Eta que ainda vou fazer um ecocardiograma e uma prova de esforço!

 


 



Escrito por tom às 23h16
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E VIVA SÃO JOÃO!

 

Quando penso nos festejos juninos, lembro-me das comemorações das escolinhas infantis, a escolha dos pares na quadrilha, a frustração porque Rosa, a menina linda de cabelos de cachos, tinha sido escolhida antes por outro menino. Mas lembro-me também, e principalmente, da fazenda de uma grande amiga da minha mãe que eu chamava de tia e chamaria até hoje se ainda nos encontrássemos com freqüência. Essa tia era, e ainda deve ser, uma pessoa quase que excessivamente alegre, rosto sorridente em tempo integral e esse sorriso aberto ficou sendo a imagem do São João na minha vida. Minha emprestada tia reunia muitos amigos em sua fazenda batizada Pau D’Arco localizada numa cidade chamada Pojuca, e como naquela época as amigas quase combinavam os seus partos, os seus filhos eram também cinco como somos cinco na família e as nossas idades emparelhadas. Durante alguns anos, não saberia dizer quantos, talvez poucos mas com tanta intensidade que me parecem agora muitos, passei o frio junino vendo a fogueira acesa e aceso também o sorriso da minha, agora distante, tia.

De lá pra cá cresci sem muito forró nem muito licor, as programações de viagem para experimentar as festas em cidades do interior todas sem sucesso por motivos variáveis. Aqui vale ressaltar que não tenho a menor vontade de conhecer os mega-shows das cidades mais famosas e gostaria sim de experimentar o que seria beber um licor ao lado de uma fogueira numa pracinha simpática, com gente simples perfeitamente entrosada com os visitantes. Enfim um clima de harmonia e solidariedade quase familiar como aquele que comumente acontece na época natalina, mas sem a tristeza própria desse. Historicamente as duas datas festejam nascimentos de pessoas com o mesmo objetivo, um anunciou a chegada do outro e até mesmo o batizou, os dois pregavam a união dos povos e ambos tiveram finais trágicos. Mas por algum motivo que valeria a pena pesquisar, e quem souber me esclareça, os festejos de um são impregnados de alegria extrovertida, enquanto que nos do outro vibra uma pálida  melancolia.

Bom, o fato é que nunca mais acendi fogueiras nem soltei bombas, no sentido literal porque metaforicamente tenho pulado muitas fogueiras e estourado muitas bombas mas isso não vem ao caso! Portanto, estou aberto a convites para conhecer a verdadeira atmosfera junina, mesmo não testemunhando mais o sorriso contagiante da minha, agora ausente, tia.


Essa foto foi tirada no pequeno palco da escolinha Pinóquio, onde estudava, antes ou depois da apresentação junina, há muitos anos atrás. Essa escolinha era propriedade da tia mencionada anteriormente.

 




Escrito por tom às 14h04
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SARAU VESPERTINO

Hoje fui visitar minha avó, aquela de 96 anos que tem uma certa fixação pelas funções intestinais como descrevi num post passado, mas isso agora não vem ao caso. Para minha surpresa, a encontrei sentadinha atrás de uma mesinha, ao lado uma luminária com uma luz fortíssima às quatro horas da tarde e ela completamente absorta na leitura de um livro pequeno e envelhecido. Fiquei alguns segundos, ou talvez um minuto observando-a e, não fosse a minha curiosidade em saber de que leitura se tratava, não sendo as habituais revistas religiosas, eu teria permanecido mais tempo na contemplação do envolvimento daqueles olhos cansados pelo tempo em letras de, quem sabe, igual idade, mas o que essas letras descreviam de tão prazeroso? Interrompi anunciando a minha presença, ela abriu o sorriso de costume e me apresentou a “Os 150 mais Célebres Sonetos da Língua Portuguesa”. Relatou que resolveu ler o primeiro livro que sua mão, quase sem rugas, apanhasse na pequena prateleira e constatou feliz que o destino havia escolhido essa antologia dos mais famosos sonetos. Como uma criança que demonstra um brinquedo novo ganho no Natal, ela começou a lê-los, ou melhor, a recitá-los pra mim com sua pequena voz agudizada pela enrijecimento das cordas vocais, mas com perfeito domínio da pontuação e até com um toque de interpretação. Leu alguns integralmente e em outros parava na metade e justificava que não tinha gostado, o que ocorria quando o poeta despejava nos quartetos e tercetos versos sobre desejos, cheiros e sabores carnais que pra minha avó nunca foram temas discutidos abertamente. Me contou entre uma leitura e outra que ela mesmo tinha escrito alguns sonetos e esforçando-se para que a memória não a traísse, recitou pedaços de um que tinha escrito para uma grande amiga que esqueceu um lenço lilás após uma visita à sua casa. Minha avó foi uma poetisa. Já havia visto alguns dos seus escritos sobre seu grande amor pelo meu avô, falecido há 25 anos mas esse soneto do lenço imprimiu em mim algo especial, motivado pelo simples esquecimento de um pedacinho de tecido, a criação de uma poesia me pareceu a princípio uma conseqüência exagerada para logo depois significar uma tal sensibilidade, um lirismo que talvez estivesse na atmosfera daqueles tempo, sem televisão, sem Internet, onde a comunicação era lenta e os deslocamentos difíceis. Um tempo onde estar com alguém, qualquer que fosse o tipo de afeto, significava querer realmente estar, onde o momento ganhava uma dimensão fantasticamente desejada e as ausências eram sentidas com mais profundidade. Um tempo onde um ser era a fonte do outro, fonte de desejos, de carinho, de inspirações, de sonetos como este que transcrevo aqui de Ciro Vieira da Cunha, poeta nascido em São Paulo em 1897 e radicado no Espírito Santo a cuja academia pertence.

 

Por ter excedido o numero de caracteres permitido por post, esse ficou dividido em duas partes, o final estando a seguir.



Escrito por tom às 23h21
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SAUDADE

Saudade! o teu olhar longo e macio

Derramando doçura em meu olhar...

Um bocado de sol sentindo frio,

Uma estrela vestida de luar...

 

Saudade! um pobre beijo fugidio

Que tanto quis e não cheguei a dar...

A mansidão inédita de um rio

Na volúpia satânica do mar...

 

Saudade! o nosso amor... o teu afago...

O meu carinho... o teu olhar tão lindo...

Um pedaço de céu dentro de um lago...

 

Saudade! um lenço branco me acenando...

Uma vontade de chorar sorrindo,

Uma vontade de sorrir chorando...

 

 

E assim vivi algumas horas bebendo do lirismo do início do século passado e tentando entender onde foi que perdemos a essência poética do ser, quando foi que deixamos de entender como indispensável e mesmo vital, a emoção de um verso, de uma música ou de uma simples paisagem ao vivo ou refeita, reinventada numa tela.


 

 

Sinto que se aproxima uma nova esquina na minha vida e chamo assim os momentos de mudanças. Quem sabe essa mudança seja a recuperação do tempo em que meus olhos marejavam e minha alma era vulnerável ao lirismo de um olhar ou de um momento. Talvez tenha endurecido meu olhar e por minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa.




Escrito por tom às 23h19
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CINCO SENTIDOS

Se eu pudesse

Te cegar por dois minutos

Te fazer enxergar somente

O meu olhar apaixonado

 

Se eu pudesse

Te ensurdecer por um minuto

Com o som da batucada sem ritmo

Do meu coração apaixonado

 

Se eu pudesse

Anestesiar a sua boca por trinta segundos

E oferecer somente o sabor

Do meu beijo apaixonado

 

Se eu pudesse

Te asfixiar por dez segundos

Te fazer respirar o ar

Do meu cheiro apaixonado

 

Se eu pudesse

Adormecer seu corpo por cinco segundos

E arrepiar a sua pele

Com o meu toque apaixonado

 

Se eu pudesse

Fazer você parar de pensar

E por um segundo

Acreditar na minha paixão

 

Se eu pudesse fazer você feliz!

 


Escrevi isso há alguns anos,  no auge de uma paixão não correspondida, aliás, a minha ultima paixão. No dia dos namorados me lembrei dessa poesia e resolvi publicá-la. Tenho vontade de sentir novamente um amor assim, tão delicado. Ainda espero.




Escrito por tom às 22h35
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