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PAVIO CURTO


O FIO SE ROMPE

Paciente terminal. Assim são chamados as pessoas doentes sem chance de recuperação. Minha “quase-irmã” ganhou esse título após um agravamento do seu estado de saúde, ou seria melhor dizer estado de doença, e internamento na UTI. “Estou sumindo”, ela havia dito, e o fio se estica, e se estica , e se estica como um elástico que cria a tensão do momento do rompimento. Agora não, espera mais um pouco. Mas parece que na outra ponta do elástico a força é bem maior do que todos nós, familiares, juntos. Como num cabo de guerra, de um lado o destino certeiro de todos nós, e de outro a esperança de que ainda não seja o momento da despedida. Força, puxa mais, puxa forte. Em vão. O fio se rompe. Nada mais a fazer. Diante desse momento único, somos todos antecipadamente derrotados, alguns no primeiro round, outros depois de ilusórias vitórias. O fato é que sempre vamos a nocaute em algum momento. Sozinho na sala do velório, olhando de longe o caixão, penso novamente que todos teremos que experimentar essa passagem, seja lá pra onde for. Eu, o desconhecido que atravessa a porta e percebe que entrou na sala errada, minha irmã que vem falar comigo e até a criança que chora na rua, todos teremos nossos fios elásticos rompidos algum dia. Que assim seja.

 


Semana de estresses. Semana de tristezas. Semana de recomeços.




Escrito por tom às 02h38
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POR UM FIO

Em pleno domingo, hoje tive a ingrata missão de visitar uma amiga que convive na minha família há tanto tempo que seria mais justo qualificá-la de irmã. Ela está num leito de uma enfermaria de hospital com uma doença sem cura e progressivamente debilitante. Não gosto de escrever a palavra mas para não deixar sentido dúbio no relato, a doença tem o nominativo que usamos também para um inocente signo zodiacal – inocente comparado à doença mas pensando em alguns amigos regidos por ele, acho que o melhor seria dizer, astutos!. Pois bem, minha “irmã” estava lá, pálida, emagrecida, debilitada mesmo de uma maneira geral. Lutando contra a doença já há mais de dois anos, a imagem era de uma desistente, de alguém que aposenta as armas e se entrega às correntes do destino. A função de um visitante, num caso desses, é animar o doente e assim procedi. Tentei convencê-la a beber um pouco de um suco de cacau trazido num copo plástico tão frágil quanto ela, depois mais uns goles de água de coco enquanto falava, em tom baixo mas forçadamente animado, frases de efeito como “você não vai desistir agora” ou “tem que se alimentar pra ficar forte e voltar pra casa”; por último, ataquei de mudança corporal e a coloquei sentada na cama e depois numa cadeira segurando sua mão e coçando sua cabeça – pra mim coçar a minha cabeça é tradução do mais alto grau de carinho e dedicação. Nesse momento ela olha pra mim com os olhos fundos, mas agradecidos e fala o que ecoaria na minha cabeça por alguns minutos e que por essa razão motivou esse post domingueiro: “Estou sumindo”.  Imediatamente se formou uma imagem de alguém que vai desintegrando numa nuvem de poeira ou de fumaça sem que se consiga puxar pelas mãos, sem que seja possível qualquer ação contrária. Um parto às avessas. Assim deve ser o fim da vida. Se no nascimento se descreve como um trauma recheado de uma certa violência já que o neonato passa do meio líquido confortável do útero para o meio sólido e claustrofóbico do canal vaginal e por fim o meio aéreo, a morte parece ter, pelo menos no caso dessas moléstias terminais, uma qualidade quase que... gasosa. Somente um fio separa nossas vidas dessa poeira ou fumaça. Vivemos assim, sumindo, por um fio.


O calor voltou. E ainda não tenho ar condicionado. Se pelo menos tivesse  alguém pra coçar a minha cabeça!

 




Escrito por tom às 23h38
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