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COCÔ DE 96 ANOS
Hoje fui visitar a minha avó materna que retornou para a cidade após quatro meses numa casa de veraneio na ilha de Itaparica. Trata-se de uma senhora de 96 anos, perfeitamente lúcida de ar aristocrático como cabe a alguém que foi matriarca de uma família em si bem pequena mas com um número de adjacentes bem significativo, decorrência de sua inclinação cristã de ajudar o próximo.
Encontrei minha linda que é como a chamo, deitada em sua cama e ao ser acordada por sua babá que é como ela nomeia sua dama de companhia, abriu os olhos, notou a minha presença, e a queixa foi imediata: - Estou doente! Espantei-me porque a informação é de que ela estava passando muito bem. Na verdade, a despeito de algumas intercorrências favorecidas pela velhice e que a levaram a internamentos como uma erisipela, uma pneumonia e uma fratura de fêmur secundária a uma queda, pode-se dizer que minha avó é uma senhora saudável e suas deficiências são frutos do desgaste natural. Eu brinco com ela dizendo que o prazo de validade de várias funções está vencido. Pois bem, ela tem a audição diminuída, o olfato comprometido levemente, a visão turva o que deve ser difícil para alguém que era viciada em leitura, e , o que parece ser o seu problema maior: uma prisão de ventre!
Minha avó tem uma obsessão pelas funções intestinais a ponto de marcar num calendário com um emblemático círculo vermelho, os dias em que seus dejetos foram expelidos e o uso constante de laxativos. Era portanto, esse o motivo da frase curta com que me recepcionou: Estou doente! Não porque estivesse obstipada, mas exatamente pelo contrário, tinha acabado de ter seu bolo fecal levado para os esgotos urbanos. Estava sentindo-se enfraquecida depois da tarefa que apesar de fisiológica, convenhamos que para um organismo tão vivido, pode ser comparável a um exercício de média intensidade. Mesmo com minha explicações sobre a perda da força muscular dos intestinos, a quase ausência de peristaltismo na sua idade, no esperado prazo de em média 3 dias entre uma dejeção e outra sem prejuízos à saúde, ela reivindicava um outro laxante. Tentei desviar o assunto para outros temas e não se passava um quarto de hora sem que houvesse o retorno do sujeito principal do encontro: o cocô aprisionado!
Minha vó tem 96 anos. Dizem que a causa mortis dos idosos obedecem à regra dos três “ca(s)”: catarro, queda ou caganeira. Minha avó já teve pneumonia (catarro), queda (fratura do fêmur)... caganeira??? Acho impossível! E lá se vai ela vivendo os juros de uma vida digna e honrada que inspira a todos nós.
Hoje estou com uma sensação incrível de despedida, só não sei de que ou de quem... Vixe, me arrepiei agora com um pensamento trágico. Deixa pra lá.
Escrito por tom às 20h44
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