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PAVIO CURTO


DIA DAS GENITORAS

Há quem diga que a maior frustração masculina é não ter a capacidade da gestação, não conviver no dia a dia com a formação da vida e ainda não experimentar fisicamente o momento sublime do nascimento da cria, desconsiderando a dor que pra isso o homem inventou a anestesia embora nem sempre aconselhável nos partos.

 

Parto, palavra simples, não conheço sua etmologia, mas associo a partes, partes que se partem, que se desprendem para se unirem eternamente. Assim é a maternidade, vínculo histórico, genético e causal no seu aspecto factual, mas também uma dimensão fantástica do exercício do amor. Amor que, acredito, nos contamina imediatamente, no momento em que deixamos o abrigo quente e úmido do útero para nos aventurar numa existência imprevisível. Não acredito que existam mães que sejam imunes a esse redimensionamento afetivo que o parto proporciona, por mais multíparas que sejam, que não transbordem suas almas de felicidade no momento em que se deparam com seus filhotes e, se algumas abandonam os seus rebentos por motivações diversas como freqüentemente lemos nos jornais, prefiro acreditar que seja esse um ato extremamente doloroso e que as condena ao remorso eterno.

 

Mas a maternidade que se inicia na gestação e que tem emblematicamente o seu auge no parto propriamente dito, segue seu curso mais detalhado por anos a fio quando cabe ao casal de genitores -  não desconsiderando o pai mas dando a ele parte menor nessa empreitada visto ser impossível a comparação entre quem mistura dor e alegria no ato de parir com quem gasta as solas de sapato numa ansiedade indolor - o acompanhamento detalhado da formação de uma nova identidade. E é assim, nascemos de um encontro entre duas células multiplicadas em milhões de outras e vamos crescendo, adquirindo formas externas e internas, gostos e desgostos, valores e descasos, nos tornando únicos no mundo, com identidade própria que mais tarde será numerada numa carteirinha, quem não sabe de cor esse número? E eis a família: pessoas bem diferentes, identidades diversas unidas principalmente pelo intenso amor que nasceu junto com cada um na sala do parto, amor re-partido e re-unido, capacidade exclusiva delas, as mães.

 

Uma vez ouvi que para uma mãe não há dor maior que perder um filho. Para um filho, não há dor maior que saber que, pela ordem dita natural das coisas, inevitavelmente, a perderá um dia, perdendo assim o cordão que nos trouxe à existência.


 

Mais que minha mãe, ela agora é minha cúmplice e amiga e se não podemos repartir tudo das nossas vidas é porque temos identidades próprias e sendo assim respeitamos nossas diferenças. 


 



Escrito por tom às 20h29
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