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PAVIO CURTO


PERDIDO NO ESPAÇO

Em primeiro lugar quero me desculpar pela demora em escrever mas as últimas semanas foram intensas e mesmo que houvesse tempo para esse exercício da documentação literária das sensações cotidianas, seria impossível a publicação dos relatos porque passei por um período difícil de abstenção internética forçada pela demora da reinstalação do sistema Velox no meu novo número telefônico.

 

Explicando melhor passei por uma mudança habitacional, um deslocamento não muito longo considerando que são bairros vizinhos, mas com um brutal choque espacial. Explicando melhor ainda; saí de um apartamento que mal cabia meus móveis antigos herdados da família paterna- móveis que trazem nos seus entalhes e linhas elegantes parte da minha estória, móveis cujos detalhes estão impregnados de lembranças – para outro cerca de quatro vezes maior. Meus queridos móveis agora podem respirar mais livremente sem o calor do sol que ao mesmo tempo que oferecia diariamente o espetáculo do ocaso, tornava o pequeno lar quente como uma estufa como ficam todos os imóveis localizados para o poente. Eles, os móveis, estão agora em maior evidência, colocados estrategicamente para produzir um efeito, ainda incipiente, de um lar arrumado, mesmo considerando não tratar-se de um ambiente familiar, haja vista que sou solteiro e morando sozinho, portanto não cabendo a qualificação que se dá quando habitam marido, esposa, filhos, empregados, cães e papagaios, embora, esclarecendo antes que sejam lançadas dúvidas quanto à minha conduta, que poderia dizer tratar-se de uma moradia familiar na questão moral do entendimento, e aqui não permito julgamentos sobre o que considero ou não saudável, mesmo porque como dizia Nelson Rodrigues; tudo que não tem testemunha, deixa de ser pecado.

 

Aqui estou eu, ainda meio perdido em tanto espaço, eu que antes tinha um quarto disfarçado de sala, ou o inverso, agora não só tenho os dois cômodos independentes e aqui vale ressaltar que a sala é imensa, como também escritório de onde escrevo agora, quarto-closet, corredor, área de serviço, cinco janelas em contraste com a única do antigo apartamento, enfim, metros e metros a mais. Nos primeiros dias o desconforto foi inevitável, sensação de estar menor, com menos aconchego, a evidencia da solidão com gosto de um abandono fictício, a comodidade espacial contrastando com o incômodo interior. Pouco a pouco e até rapidamente fui me adaptando ao ponto de hoje no almoço ter relatado com um amigo que não sei mais como consegui viver durante cinco anos num espaço tão reduzido. De “perdido no espaço” vou me achando agora em cada esquina, em cada parede do meu novo larzão, buscando recheá-lo de utensílios e charme com objetos que vão chamando a atenção do meu olhar atento de morador motivado em transformar o espaço talvez exagerado num aconchego com meu jeito, combinar meus novos objetos aos antigos móveis, e do conjunto deles modelar uma nova estória.


 

Meus livros, ainda encaixotados, parecem reivindicar também o espaço deles. Tenho que providenciar a colocação das prateleiras no escritório.

 




Escrito por tom às 23h08
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