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E VIVA SÃO JOÃO!

Quando penso nos festejos juninos, lembro-me das comemorações das escolinhas infantis, a escolha dos pares na quadrilha, a frustração porque Rosa, a menina linda de cabelos de cachos, tinha sido escolhida antes por outro menino. Mas lembro-me também, e principalmente, da fazenda de uma grande amiga da minha mãe que eu chamava de tia e chamaria até hoje se ainda nos encontrássemos com freqüência. Essa tia era, e ainda deve ser, uma pessoa quase que excessivamente alegre, rosto sorridente em tempo integral e esse sorriso aberto ficou sendo a imagem do São João na minha vida. Minha emprestada tia reunia muitos amigos em sua fazenda batizada Pau D’Arco localizada numa cidade chamada Pojuca, e como naquela época as amigas quase combinavam os seus partos, os seus filhos eram também cinco como somos cinco na família e as nossas idades emparelhadas. Durante alguns anos, não saberia dizer quantos, talvez poucos mas com tanta intensidade que me parecem agora muitos, passei o frio junino vendo a fogueira acesa e aceso também o sorriso da minha, agora distante, tia.
De lá pra cá cresci sem muito forró nem muito licor, as programações de viagem para experimentar as festas em cidades do interior todas sem sucesso por motivos variáveis. Aqui vale ressaltar que não tenho a menor vontade de conhecer os mega-shows das cidades mais famosas e gostaria sim de experimentar o que seria beber um licor ao lado de uma fogueira numa pracinha simpática, com gente simples perfeitamente entrosada com os visitantes. Enfim um clima de harmonia e solidariedade quase familiar como aquele que comumente acontece na época natalina, mas sem a tristeza própria desse. Historicamente as duas datas festejam nascimentos de pessoas com o mesmo objetivo, um anunciou a chegada do outro e até mesmo o batizou, os dois pregavam a união dos povos e ambos tiveram finais trágicos. Mas por algum motivo que valeria a pena pesquisar, e quem souber me esclareça, os festejos de um são impregnados de alegria extrovertida, enquanto que nos do outro vibra uma pálida melancolia.
Bom, o fato é que nunca mais acendi fogueiras nem soltei bombas, no sentido literal porque metaforicamente tenho pulado muitas fogueiras e estourado muitas bombas mas isso não vem ao caso! Portanto, estou aberto a convites para conhecer a verdadeira atmosfera junina, mesmo não testemunhando mais o sorriso contagiante da minha, agora ausente, tia.
Essa foto foi tirada no pequeno palco da escolinha Pinóquio, onde estudava, antes ou depois da apresentação junina, há muitos anos atrás. Essa escolinha era propriedade da tia mencionada anteriormente.
Escrito por tom às 14h04
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SARAU VESPERTINO
Hoje fui visitar minha avó, aquela de 96 anos que tem uma certa fixação pelas funções intestinais como descrevi num post passado, mas isso agora não vem ao caso. Para minha surpresa, a encontrei sentadinha atrás de uma mesinha, ao lado uma luminária com uma luz fortíssima às quatro horas da tarde e ela completamente absorta na leitura de um livro pequeno e envelhecido. Fiquei alguns segundos, ou talvez um minuto observando-a e, não fosse a minha curiosidade em saber de que leitura se tratava, não sendo as habituais revistas religiosas, eu teria permanecido mais tempo na contemplação do envolvimento daqueles olhos cansados pelo tempo em letras de, quem sabe, igual idade, mas o que essas letras descreviam de tão prazeroso? Interrompi anunciando a minha presença, ela abriu o sorriso de costume e me apresentou a “Os 150 mais Célebres Sonetos da Língua Portuguesa”. Relatou que resolveu ler o primeiro livro que sua mão, quase sem rugas, apanhasse na pequena prateleira e constatou feliz que o destino havia escolhido essa antologia dos mais famosos sonetos. Como uma criança que demonstra um brinquedo novo ganho no Natal, ela começou a lê-los, ou melhor, a recitá-los pra mim com sua pequena voz agudizada pela enrijecimento das cordas vocais, mas com perfeito domínio da pontuação e até com um toque de interpretação. Leu alguns integralmente e em outros parava na metade e justificava que não tinha gostado, o que ocorria quando o poeta despejava nos quartetos e tercetos versos sobre desejos, cheiros e sabores carnais que pra minha avó nunca foram temas discutidos abertamente. Me contou entre uma leitura e outra que ela mesmo tinha escrito alguns sonetos e esforçando-se para que a memória não a traísse, recitou pedaços de um que tinha escrito para uma grande amiga que esqueceu um lenço lilás após uma visita à sua casa. Minha avó foi uma poetisa. Já havia visto alguns dos seus escritos sobre seu grande amor pelo meu avô, falecido há 25 anos mas esse soneto do lenço imprimiu em mim algo especial, motivado pelo simples esquecimento de um pedacinho de tecido, a criação de uma poesia me pareceu a princípio uma conseqüência exagerada para logo depois significar uma tal sensibilidade, um lirismo que talvez estivesse na atmosfera daqueles tempo, sem televisão, sem Internet, onde a comunicação era lenta e os deslocamentos difíceis. Um tempo onde estar com alguém, qualquer que fosse o tipo de afeto, significava querer realmente estar, onde o momento ganhava uma dimensão fantasticamente desejada e as ausências eram sentidas com mais profundidade. Um tempo onde um ser era a fonte do outro, fonte de desejos, de carinho, de inspirações, de sonetos como este que transcrevo aqui de Ciro Vieira da Cunha, poeta nascido em São Paulo em 1897 e radicado no Espírito Santo a cuja academia pertence.
Por ter excedido o numero de caracteres permitido por post, esse ficou dividido em duas partes, o final estando a seguir.
Escrito por tom às 23h21
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SAUDADE
Saudade! o teu olhar longo e macio
Derramando doçura em meu olhar...
Um bocado de sol sentindo frio,
Uma estrela vestida de luar...
Saudade! um pobre beijo fugidio
Que tanto quis e não cheguei a dar...
A mansidão inédita de um rio
Na volúpia satânica do mar...
Saudade! o nosso amor... o teu afago...
O meu carinho... o teu olhar tão lindo...
Um pedaço de céu dentro de um lago...
Saudade! um lenço branco me acenando...
Uma vontade de chorar sorrindo,
Uma vontade de sorrir chorando...
E assim vivi algumas horas bebendo do lirismo do início do século passado e tentando entender onde foi que perdemos a essência poética do ser, quando foi que deixamos de entender como indispensável e mesmo vital, a emoção de um verso, de uma música ou de uma simples paisagem ao vivo ou refeita, reinventada numa tela.
Sinto que se aproxima uma nova esquina na minha vida e chamo assim os momentos de mudanças. Quem sabe essa mudança seja a recuperação do tempo em que meus olhos marejavam e minha alma era vulnerável ao lirismo de um olhar ou de um momento. Talvez tenha endurecido meu olhar e por minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa.
Escrito por tom às 23h19
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