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PAVIO CURTO


HOLTER

Holter, esse é o nome de um exame que consiste no registro da atividade elétrica do coração durante 24 horas, isso mesmo, um eletrocardiograma contínuo durante um dia inteiro. Mas é claro que não é necessário a permanência do paciente numa maca, imóvel todo esse tempo, não chega a ser tão incômodo assim.  O exame é realizado por um aparelho preso na cintura, uma caixinha preta contendo uma fita onde vai sendo gravada a dinâmica do coração com fios presos no peito esquerdo por poderosas fitas adesivas. Pois bem, aqui estou eu ligado a fios e com uma pochete preta na cintura, e se os mais novos não conhecerem esse utensílio tão usado na década de 80, que pesquisem ou perguntem aos pais.

O exame foi solicitado por meu cardiologista, apenas por precaução, considerando a minha queixa de uma eventual e rara sensação de peso no peito que mais considero resultado de lacunas emocionais, eufemismo de carências, do que de desequilíbrios fisiológicos. Mas aceitei ficar essas 24 horas registrando meu compasso cardíaco.

Amanhã quando entregar o aparelho de volta, estará gravado na fitinha toda a dinâmica cardíaca, mas... e se por esses fios pudesse passar toda minha história emocional? Não se fala que o coração abriga as emoções? Imagino que o meu pobre médico ficaria emocionado em algumas passagens quase cinematográficas como um namoro num banho de mar numa noite de lua cheia, com direito a beijos apaixonados e promessas de amor eterno, o coração inchado de felicidade e palpitante de desejos na época pouco conhecidos. Talvez ele ficasse triste com as cenas de depressão, de choros convulsivos, de amores não correspondidos; talvez achasse chato quando interpretasse os traçados de um período inexpressivo emocionalmente quando decidi “resfriar” o coração na inútil tentativa de não me expor à dor, sem sabê-la inerente aos amantes. Talvez criasse um certo suspense nos momentos de mudanças radicais como na época em que larguei tudo para morar numa outra cidade, realizar outros sonhos. Meu médico poderia dar qualquer diagnóstico, menos insuficiência emocional. Esse meu coração amou pouco mas intensamente, não proclamou independência total da razão mas até hoje convive em tácito acordo com ela,  e até já conquistou alguns episódios de quase puras loucuras.

Amanhã, depois que arrancar do peito esses fios, vou proclamar a época do pensamento cardíaco, durante a qual meu raciocínio se fará segundo minhas mais puras e sinceras emoções. Época onde chorar e rir serão possibilidades sempre presentes, amar tudo e todos que possam eventualmente ou por momentos mais prolongados, oferecer um segundo de felicidade.  

Está declarada guerra aos neurônios repressores e às sinapses da timidez.  


Eta que ainda vou fazer um ecocardiograma e uma prova de esforço!

 


 



Escrito por tom às 23h16
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