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TEIA DE CORDÕES
Na noite do ultimo domingo, ao checar no celular se alguém havia telefonado no tempo em que mantive, por motivos profissionais, o aparelho sem campainha, encontro uma mensagem do meu amigo virtual, já motivo de um post anterior, que dizia: “minha mãe se foi hoje de manhã. Estou triste.” Notícias de falecimentos sempre me deixam triste, mas quando se trata de mães a sensação é ainda mais profundamente melancólica. Ainda tenho a minha viva e com relativa saúde mas já acompanhei a “ida” de algumas mães de amigos e a atmosfera que se instala é bem diferente, a tristeza das pessoas em geral e dos filhos em particular parece mais intensa. Minha mãe algumas vezes já expressou a sua preocupação com a possibilidade de algum dos seus cinco filhos tenha a vida encerrada antes da dela, o que para ela seria uma dor irreparável, mas para nós, filhos, a idéia da morte materna deveria ser de alguma forma esperada, considerando a tão famosa e nem sempre obedecida “ordem natural das coisas”. Mas não acontece tão tranqüilamente assim.
Baseado nas reações dos meus amigos órfãos maternos e até em depoimentos deles, a morte da mãe encerra uma etapa, finaliza um estado. Um elo se rompe, o elo ascendente, um galho da árvore genealógica quebra e agora a outro galho cabe gerir o equilíbrio. Não é mais possível o contato com a origem; foi-se a fonte genética, a primeira casa, o primeiro abrigo aquecido, a primeira refeição, o primeiro espelho, a primeira voz... o primeiro amor. Cortaram pela segunda vez, e de forma definitiva, o cordão umbilical. Agora se flutua à deriva e colocar os pés em solo firme parece uma possibilidade remota. Não existe amor mais completo, intenso e incondicional do que o amor materno, mas quando este se torna uma lembrança ou exercido apenas em atmosferas transcendentais, são outros amores que formam novos cordões. Alguns familiares ou mesmo filiais sendo que pra esses se assume a função de origem primeira, e outros onde não pulsa o sangue original mas por onde trafegam emoções igualmente intensas.
Somos libertos numa teia de cordões genéricos, imitações magníficas do cordão umbilical, cordões de filhos, de irmãos, de namorados, esposas, cordões passageiros de quem nos sorri na rua ou de quem nos oferece algum serviço, milhares e milhares de cordões que se prendem no nosso coração ou apenas no olhar, ou em qualquer outra parte a depender da criatividade de cada um. Desses todos talvez os cordões dos amigos sejam os mais fortes e resistentes.
Quando li a mensagem do meu virtual amigo, entristeci por um lado e me alegrei por outro. Quando perdemos alguém querido, e nisso tenho alguma experiência, a preocupação da família em geral é avisar aos conhecidos, parentes e amigos do falecido. Mas a preocupação específica de quem sofre a perda é avisar a quem possa nos confortar. Entendi a mensagem como prova indiscutível de que existe um cordão que nos une, e se não pude encurtar esse cordão – estamos a 2000 km de distância – ao ponto de poder abraçá-lo forte, vai nesses versos todo meu carinho de poeta amador.
Os meus versos vão publicados no blog seguinte porque mais uma vez excedi o limite dos caracteres
Escrito por tom às 20h17
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ADEUS MAMÃE
Adeus mamãe,
que chegou a hora de uma despedida pouco pensada,
não tão esperada quanto à em que me pariste,
que a gravidez com seu prazo calculado
avisa a proximidade com dor natural.
Mas essa dor agora é estéril, surda e funda.
É uma dor sem jeito essa dor no peito
Adeus mamãe,
que agora estou eu aqui, solto no mundo,
que o cordão já se partiu.
Intensa tua felicidade ao me ver chorar a primeira vez.
Intensa minha dor ao assistir teu fim.
E choro mais alto, bem mais alto
que no momento em que nasci.
Adeus, mamãe,
que é minha vez de parir,
mesmo esse parto que ao contrário se encerra.
Me puseste pra fora, nesse mundo
E agora eu a coloco pra dentro da mãe maior,
A terra.
Escrito por tom às 20h15
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