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CORAL ETILISTA
Resolvi hoje atualizar o meu blog, não motivado por nenhum fato específico mas pelas reclamações de amigos-leitores, algumas seguidas até de acusações do crime, delicioso para um taurino, de preguiça. Minha intenção era escrever sobre conflitos existenciais como propulsores de produtividade pessoal, tema para o qual fui inspirado pelo blog de um jovem novo amigo que viveu apenas metade do que já existi. Mas me sento na frente do computador e minha inspiração é tumultuada por um grupo de cantores desafinados que após alguns copos de cerveja, resolveram unir-se num coral saudosista a entoar canções antigas, a mais nova delas, com certeza, comemorando vinte anos de existência. Tento prosseguir no meu intento de defender a tese dos benefícios dos conflitos, mas... nada. Nenhuma possibilidade de tecer um raciocínio interessante, tendo como fundo musical as esganiçadas vozes dos meus vizinhos. Pausa longa, pitada de raiva, algumas idas à janela na tentativa de perceber algum movimento de despedida do grupo; penso em desistir de satisfazer meus amigos-leitores. Mas, de repente, eles entoam mais animados ainda, o refrão de uma música, versão de Gilberto Gil: “ Não, não chore mais. Não, não chore mais!” O riso foi inevitável, o recado informal estava dado. Não vou chorar, mudo de tema e vou escrever!
O coral dos senhores trabalhadores embaixo da minha janela que antes produziam em mim um efeito de estresse, começou a conduzir uma sensação de felicidade, ainda que desafinada nas características vocais mas em plena forma na essência dos sentimentos e lembranças que cada um deles usava como motivador para o canto. Alguns arriscavam um canto choramingado falando de alguma amada que se fora, outros embutiam na voz cantada um sorriso ao falar de reencontros. Tive direito até a um solo do que era certamente considerado o mais talentoso e aplaudido calorosamente por seus colegas ao final da exibição. Interpretações genuínas de paixões e saudades. E a “beleza” desse show na calçada de um boteco foi se desvendando.
Talvez o canto seja a maior e mais poderosa arma libertadora do ser humano e certamente a mais grandiosa expressão de felicidade. Através dele nossos conflitos são amenizados ou, no mínimo, são expressos de forma menos dolorosas. Se a felicidade é motivadora primeira da manifestação cantada, a melancolia é fonte inspiradora freqüente na produção das canções. Acredito que a manifestação espontânea do canto como a ocorrida nessa tarde, seja sempre impulsionada pela vibração de felicidade libertária própria dos domingos, mas o mesmo canto pode ser o caminho condutor para o contato com a mais profunda tristeza existencial. Quem nunca entrou no chuveiro, fez do frasco de shampoo um improvisado microfone e soltou a voz após um orgasmo intenso? Quem nunca teve vontade de correr e cantar alto após ouvir um “sim” da pessoa amada? Quem nunca experimentou um bem-estar súbito ao ouvir no radio do carro uma música querida? Mas também que nunca chorou cantando embaixo do mesmo chuveiro? Ou quem nunca colocou uma música de Nana Caymmi ou Maísa ou qualquer outra voz com capacidade de tocar uma alma vulnerável pra ser fundo musical de um momento de forte melancolia?
O canto, a música... sem as sete notas em infinitas combinações certamente nossa existência seria infinitamente menos saudável e menos prazeirosa.
O coral encerrou seu show quase ao mesmo tempo que concluo meu pensamento. Tenho vontade de voltar à janela, dessa vez para aplaudir os cantores alcoolizados mas me contenho pensando que poderia ficar sendo conhecido por eles como o “maluco do segundo andar”.
Preciso comprar meu som novo, o antigo está dando sinais de envelhecimento e me dou conta que não tenho ouvido mais música em casa com a freqüência de antes. Talvez seja esse o motivo de alguns conflitos, produtivos ou não, que sejam embalados por música! Sempre música!!!!
Escrito por tom às 17h05
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